A pesquisa em História e um dilema.

Em nome de uma História que fosse mais cientifica, muitos historiadores se dedicaram a pesquisas na longa duração. As continuidades era uma prova cabal da cientificidade do conhecimento histórico. O descontínuo, ou seja, os fatos únicos e irrepetíveis passaram a ser descartados. De fato que essa idéia vem perdendo força a algum tempo, mas seria útil sabermos a opinião do francês Michel Foucault retirada do livro Teoria da História de Maria Beatriz Nizza da Silva da página 56 à 60.

“Já faz algumas dezenas de anos que a atenção dos historiadores tem-se concentrado de preferência nos longos períodos. Para levar a cabo essa análise, os historiadores dispõem de instrumentos que em parte construíram e em parte receberam: modelos de crescimento econômico, análise quantitativa dos fluxos de trocas, perfis dos desenvolvimentos e das regressões demográficas, estudo das oscilações do clima. Para a História, o descontínuo era aquilo que devia ser apagado para que aparecesse a continuidade dos encadeamentos. A descontinuidade era o estigma da dispersão temporal que o historiador tinha a seu cargo suprimir da História.

A descontinuidade tornou-se hoje um dos elementos fundamentais da análise histórica. Poder-se-ia dizer que a História e, de maneira geral, as disciplinas históricas deixaram de ser a reconstituição de encadeamentos para além das sucessões aparentes; praticam na atualidade a disposição sistemática do descontínuo. E é preciso compreender aquilo em que se tornou a História no trabalho real dos historiadores: certo uso regrado da descontinuidade pela análise das séries temporais.

A História não é estrutura, mas devir; que não é simultaneidade, mas sucessão; que não é sistema, mas prática; que não é foram, mas esforço constante de uma consciência que se recupera a si próprio, e que tenta apreender-se até ao mais profundo das suas condições; a História que não é descontinuidade, mas longa paciência ininterrupta.

Em resumo, era preciso reconstituir para fins de salvação, uma História como já não se faz.”

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